Plantas de uso tradicional na Amazônia: como as comunidades utilizam espécies da floresta no dia a dia
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Buriti, vitória-régia e assacu: descubra as plantas úteis da Amazônia que alimentam comunidades, sustentam peixes e erguem o Uakari Lodge

Muitas plantas nativas da Amazônia são aproveitadas de forma direta pelas comunidades ribeirinhas da região, seja como alimento, como material de construção ou como parte do equilíbrio que sustenta peixes e outros animais da floresta alagada, e três exemplos encontrados na Reserva Mamirauá resumem bem essa relação: o buriti, a vitória-régia e o assacu.
A cada estação, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá muda de forma, e a vegetação que resiste a esse ciclo carrega consigo uma função que vai muito além da paisagem. Ela alimenta peixes que sobem os igapós durante a cheia, oferece madeira leve o suficiente para flutuar, produz frutos que sustentam famílias inteiras e, em muitos casos, carrega um nome, um uso e um tempo de floração que os moradores da região conhecem de cor. É esse conjunto de espécies, e a relação que as comunidades constroem com elas ao longo de gerações, que forma o que chamamos de plantas úteis da Amazônia.
O Uakari Lodge é uma pousada flutuante de turismo de base comunitária instalada na Reserva Mamirauá, e essa relação entre floresta e comunidade está em todos os lugares por ali: na estrutura que flutua sobre o lago Mamirauá, nas folhas que aparecem ao lado das canoas durante os passeios guiados e nas explicações que os guias locais compartilham sobre cada espécie encontrada pelo caminho. Este artigo reúne três dessas plantas, cada uma com uma função distinta, para mostrar como a floresta de várzea sustenta, ao mesmo tempo, pessoas, peixes e a própria pousada.
Assacu, a árvore que sustenta o Uakari Lodge

Entre as espécies nativas da várzea amazônica, o assacu (Hura crepitans) tem um papel bastante particular na história do Uakari Lodge, já que é sobre grandes toras dessa árvore que a pousada flutua. A espécie pertence à família Euphorbiaceae, desenvolvendo-se, principalmente, em solos alagados e margens de rios, e pode ultrapassar os trinta metros de altura, com um tronco extremamente grosso. Estudos do Serviço Florestal Brasileiro apontam densidade média entre 0,35 e 0,40 gramas por centímetro cúbico para sua madeira, o que explica sua flutuabilidade e torna o assacu uma escolha natural para uma arquitetura pensada para acompanhar os dez a quinze metros de variação anual do nível dos rios Solimões e Japurá.
O manejo das toras usadas na pousada é acompanhado tecnicamente pelo grupo de manejo florestal comunitário do Instituto Mamirauá, em parceria com as comunidades ribeirinhas responsáveis pela retirada sustentável da madeira. A história completa dessa relação entre saber tradicional, ciência e arquitetura flutuante está contada em detalhes no artigo Arquitetura que nasce da Amazônia.
Buriti, a planta que alimenta gente, floresta e rio na Amazônia

Se o assacu mantém a estrutura da pousada, o buriti (Mauritia flexuosa) alimenta boa parte da vida ao redor dela. A palmeira cresce justamente nos terrenos baixos e alagáveis que caracterizam a várzea e o igapó, formando os buritizais às margens de rios e igarapés, e é classificada pela Flora Econômica da Universidade Federal do Amazonas como espécie alimentícia, madeireira, medicinal, ornamental, produtora de fibra e de óleo ao mesmo tempo, o que a torna uma das plantas de uso mais diversificado entre as populações amazônicas.
Do fruto do buriti se extrai óleo comestível, usado tradicionalmente na fritura de peixe, além de bebidas, doces e uma fécula semelhante ao sagu, enquanto as folhas mais novas alimentam a produção de artesanato e cobertura de moradias, segundo o material técnico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) sobre a espécie. Essa diversidade de uso é também o que dá ao buriti um papel de destaque na alimentação de comunidades ribeirinhas e indígenas ao longo de toda a bacia amazônica.
O papel do buriti não se limita, porém, ao que chega à mesa das famílias. Durante a cheia, quando a floresta de várzea se transforma em igapó, os frutos e sementes que caem das árvores, entre elas as palmeiras como o buriti, tornam-se o alimento principal de cerca de 200 espécies de peixes que entram na floresta alagada em busca de comida, entre elas o tambaqui e o próprio pirarucu. É esse elo entre a árvore e o peixe, quase invisível para quem observa de fora, que sustenta parte importante da pesca da qual dependem as comunidades da Reserva Mamirauá. Para entender melhor essa dinâmica das águas que moldam a floresta, vale a leitura do artigo Rios da Amazônia: conheça os caminhos de água que moldam a floresta, que também aborda a vegetação típica das margens do Solimões e do Japurá.
Vitória-régia, utilidade além do espetáculo visual

A vitória-régia (Victoria amazônica) costuma ser lembrada primeiro pelo tamanho de suas folhas circulares, capazes de ultrapassar dois metros de diâmetro e sustentar peso considerável na superfície da água, mas sua função na várzea amazônica vai além da beleza que atrai fotógrafos e visitantes. Segundo reportagem do Portal Amazônia, a planta integra o grupo das PANCs, as plantas alimentícias não convencionais, com sementes e partes que já foram registradas na alimentação de algumas comunidades ribeirinhas amazônicas, ainda que esse uso não seja praticado de forma generalizada em toda a região.
Do ponto de vista ecológico, a contribuição da vitória-régia para a vida da várzea é mais constante. Suas folhas oferecem abrigo para peixes e outros animais aquáticos, funcionando como parte do ecossistema que sustenta a fauna dos lagos e igarapés amazônicos, conforme aponta a pesquisadora, Clebiana Nunes, do Museu Paraense Emílio Goeldi em reportagem para o jornal O Liberal. Na Reserva Mamirauá, a espécie aparece com frequência nas margens tranquilas dos lagos e canais percorridos pelas canoas durante os passeios do Uakari Lodge, especialmente nos meses de cheia.
Plantas conhecidas pelo nome, uso e por ritmo de florescimento

Nenhuma dessas informações chega ao visitante do Uakari Lodge por acaso. Os guias locais, moradores das comunidades da Reserva Mamirauá, aprenderam a reconhecer a floresta com uma precisão que vai muito além da identificação de espécies: eles conhecem as árvores pelo nome, pelo uso e pelo ritmo de florescimento, o que transforma qualquer trilha ou passeio de canoa em uma aula sobre a relação entre floresta, água e comunidade. Essa forma de conhecimento, construída ao longo de gerações de convivência com a várzea, está no centro do modelo de turismo de base comunitária adotado pela pousada, e é também o que diferencia uma caminhada guiada por quem nasceu na região de uma simples observação da paisagem.
Leia também: Comunidades Ribeirinhas da Amazônia: quem são as pessoas que vivem e preservam a Reserva Mamirauá
Onde ver essas plantas na Reserva Mamirauá

Buriti, vitória-régia e assacu aparecem ao longo dos roteiros do Uakari Lodge de formas diferentes, dependendo da estação do ano. Na cheia, entre dezembro e julho, as canoas deslizam entre as copas das árvores e é possível observar de perto folhas de vitória-régia flutuando nos lagos mais calmos, enquanto os buritizais marcam as margens mais baixas da várzea. Na seca, entre agosto e novembro, as trilhas a pé revelam o solo onde essas mesmas espécies se fixam e se reproduzem, entre praias fluviais e caminhos que só existem fora do período de inundação. Para entender qual estação combina mais com o tipo de observação que você procura, o guia Quando Visitar a Amazônia detalha as diferenças entre cheia e seca na Reserva Mamirauá e pode te auxiliar nessa descoberta.
Conhecer essas plantas de perto, guiado por quem convive com elas todos os dias, é uma das formas mais diretas de entender a floresta amazônica não como um cenário fixo, mas como um sistema em que árvores, peixes, comunidades e arquitetura estão profundamente conectados.
Para saber mais sobre hospedagem e roteiros de 3, 4 e 7 noites no Uakari Lodge, visite nosso site e siga o perfil no Instagram para acompanhar a vida na Reserva Mamirauá.


