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Arquitetura que nasce da Amazônia: saber tradicional, manejo florestal e conservação na pousada flutuante Uakari

  • 19 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Dormir sobre a água em plena floresta amazônica é mais do que uma experiência. É uma forma real de conhecer a reserva Mamirauá com respeito, saber tradicional e sustentabilidade.

Pousada flutuante na Amazônia - foto por Lucas Ramos
Foto: Lucas Ramos

Chegar de lancha até o Uakari Lodge é uma transição suave entre rio e floresta. Durante o trajeto a partir de Tefé, são cerca de sessenta minutos observando água por todos os lados, árvores, galhos que emergem do espelho d’água e o voo constante de aves ribeirinhas. De repente essa paisagem se transforma. O cenário é rompido por cinco bangalôs flutuando de forma sincronizada com o movimento da água. É assim que começa a experiência de hospedagem no Lodge.


A pousada Uakari fica na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá em uma área conhecida como lago Mamirauá, com ligação ao rio Japurá, que é um dos braços do rio Solimões. Essa localização é estratégica. 


Segundo Lucas Ramos, gestor operacional do Uakari Lodge, é ali que o lago deságua no rio. Ele explica que é onde chamam de correnteza, e que isso proporciona um avistamento de vida selvagem muito melhor. Peixes, botos e jacarés se encontram para viver suas dinâmicas naturais.


Saber tradicional e ciência caminham juntos


Silhueta de uma pessoa com a pousada Uakari Lodge ao fundo
Foto: Gui Gomes

A história da pousada Uakari flutuante começa com pesquisa. “A pousada começou a operar em um laboratório flutuante do Instituto Mamirauá, lembra Lucas. “Foi organizado de forma básica para receber os primeiros visitantes. Foi um sucesso tanto na experiência de estar em um empreendimento que flutua no rio quanto na localização”.


A experiência deu tão certo que veio o investimento na construção da estrutura atual. A arquitetura flutuante da pousada nasceu da união entre o conhecimento tradicional das comunidades ribeirinhas da Amazônia e o compromisso de gerar menos impacto ambiental na várzea.


As pessoas que moram na Amazônia já dominavam essa habilidade de fazer grandes construções flutuantes no rio, explica Lucas. Ele descreve a floresta alagada como um mini ecossistema que fica inundado por quatro ou cinco meses por ano. A adaptação exigida por este ciclo veio de encontro à técnica de construir estruturas fortes e resilientes que, por sua vez, já existia antes da pousada e foi incorporada ao projeto.


Construir flutuando reduz impacto ambiental

Pousada Flutuante na Amazônia
Foto: Lucas Ramos

Quando falamos em turismo na Amazônia, uma das maiores preocupações é a interferência no ambiente. Lucas é direto ao explicar essa escolha:


“Se fôssemos construir em terra firme, precisaríamos desmatar, abrir caminho, abrir um grande espaço para construir acomodações. Fazer um empreendimento que flutua foi mais viável e ambientalmente responsável.”

A variação do nível da água na reserva Mamirauá pode chegar de dez a quinze metros ao longo do ano. A arquitetura flutuante acompanha esse movimento natural sem precisar de estruturas altas e fixas no solo. Isso evita clareiras grandes na floresta e reduz alterações nas rotas naturais da fauna e da flora.


O resultado é uma pousada flutuante que está em sintonia com a paisagem amazônica.


Assacu: a árvore que sustenta a pousada


Assacu: a árvore que sustenta a pousada Uakari Lodge
Assacu: a árvore que sustenta a pousada

A base do Uakari Lodge são grandes toras de assacu, uma árvore nativa da Amazônia com nome científico Hura crepitans. Essa espécie pertence à família Euphorbiaceae e ocorre principalmente em áreas alagadas, em solos de várzea e margens de rios. Essas árvores cresceram durante séculos adaptadas ao ciclo da cheia e da seca, o que faz dessa madeira uma escolha natural para estruturas flutuantes.


“São árvores gigantescas com mais de trinta metros de altura e extremamente grossas”, conta Lucas. A madeira do assacu possui densidade considerada leve, e isso favorece sua flutuabilidade. Estudos do Serviço Florestal Brasileiro apontam densidade média entre 0,35 e 0,40 gramas por centímetro cúbico, além de textura e propriedades adequadas para ambientes com água corrente.


A morfologia dessa árvore também impressiona. O assacu possui frutos que se abrem de forma rápida e espalham sementes a certa distância, o regime de várzea (floresta alagada) ajuda que essas sementes flutuantes cheguem mais longe a cada ano. Esse e outros mecanismos são monitorados de perto pela equipe Grupo de Manejo Florestal Comunitário do Instituto Mamirauá, que junto com as comunidades ribeirinhas, estão em capacitação contínua em todos os aspectos de organização social  e de manejo técnico. 


Lucas faz questão de diferenciar o método tradicional de retirada e o manejo sustentável. No passado, a árvore era sangrada, deixada secar e, depois, derrubada. Só então era retirada quando a água subia e facilitava o transporte. Hoje, o processo é acompanhado tecnicamente pelo Instituto Mamirauá com manejo florestal responsável.


“Todas as bóias da pousada Uakari são de manejo desde o princípio”, afirma Lucas. Quem faz esse trabalho são as comunidades, com acompanhamento de pesquisadores. A reserva Mamirauá tem mais de um milhão de hectares com diferentes programas de manejo. O turismo se conecta com esse ciclo produtivo sustentável.


Usar assacu na arquitetura flutuante da pousada significa construir com uma espécie adaptada ao ambiente. Em vez de alterar o solo ou fazer grandes clareiras na floresta, a estrutura flutua sobre toras que acompanham naturalmente a variação do nível da água. É uma solução baseada na natureza, com fundamento técnico e cultural. É também uma forma de mostrar que o conhecimento tradicional das comunidades pode caminhar junto com conservação, pesquisa e turismo sustentável na Amazônia.


Uma estrutura que acompanha o ciclo da água


Troncos da árvore assacu sustentando a pousada flutuante Uakari Lodge na Amazônia
Foto: Lucas Ramos

Flutuar exige manutenção constante. A estrutura da pousada é amarrada com cabos marítimos que precisam ser ajustados conforme o rio sobe ou desce. Lucas explica que, se o nível da água sobe, é preciso soltar mais os cabos para a pousada subir junto. Se o rio seca, é necessário puxar os cabos porque a pousada precisa descer.


Esse trabalho é diário. O setor de manutenção observa nivelamento de piso, tubulação, telhado e o comportamento natural da água. A pousada respira junto com a floresta.


Sensações que só uma pousada flutuante proporciona

Barco se chegando na pousada Uakari Lodge
Foto: Henrique Cunha

Lucas descreve um dos momentos mais marcantes, que é a chegada:


“Você vem naquela imensidão de água e floresta e, de repente, vê a estrutura flutuando de forma romântica e sincronizada com a paisagem. Aves voam ao redor, peixes aruanãs nadam próximos. Dependendo do período, jacarés estão ali morando debaixo da pousada.”

Há também os sons. Em parte do ano, a correnteza é mais forte e o barulho da água parece uma trilha natural. Lucas compara com ASMR, que são sons suaves e repetitivos que causam sensação de relaxamento. É como um descanso sensorial constante produzido pela água correndo.


Dormir sobre a água é uma experiência única. A vista é sempre de água ou floresta. O hóspede se sente em uma embarcação com o rio em movimento, uma forma verdadeira de imersão na Amazônia.


Uma pousada flutuante em harmonia com a reserva Mamirauá


barco se aproximando da pousada uakari lodge
Foto: Hentique Cunha

A arquitetura da pousada Uakari não é apenas uma escolha visual. Ela representa turismo sustentável integrado às comunidades da reserva de desenvolvimento sustentável Mamirauá e alinhado com a missão do Instituto Mamirauá.


Unir conhecimento ancestral, manejo florestal e conservação transforma essa hospedagem na floresta amazônica em referência. Não é sobre dominar o ambiente. É sobre aprender com ele.


Para saber mais sobre viagens para a reserva Mamirauá, roteiros de três, quatro e sete noites e experiências de observação da fauna, acesse o site oficial:



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©2021 por UAKARI LODGE   Fotos: ©GuiGomes

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