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Como Funciona a Pesca na Reserva Mamirauá: Manejo e Tradição

  • 28 de ago.
  • 5 min de leitura

Descubra como funciona a pesca na Reserva Mamirauá, do manejo do pirarucu ao peixe que chega à mesa e à pesca tradicional no Uakari Lodge


Barco ancorado em ponte no rio da Reserva Mamirauá.
Foto: Mariana Vieira

Como funciona a pesca na Reserva Mamirauá: manejo, alimentação e modo de vida


Dois homens em um barco pescam em rio na Reserva Mamirauá
Foto: Mariana Vieira

A pesca na Reserva Mamirauá funciona, hoje, principalmente através do manejo participativo do pirarucu: comunidades ribeirinhas contam visualmente os estoques de peixe em cada lago, o Instituto Mamirauá sistematiza esses dados e os submete ao Ibama, que autoriza uma cota anual de captura de até 30% dos indivíduos adultos registrados, deixando o restante da população intacta para garantir a reprodução da espécie no ano seguinte. 


É esse mesmo sistema, construído ao longo de quase três décadas, que determina boa parte do que chega ao cardápio de pousadas como o Uakari Lodge e da forma como um hóspede vivencia a pesca tradicional dentro da reserva. Entender esse funcionamento exige olhar para trás, para o momento em que a pesca de pirarucu quase deixou de existir.


Da proibição à recuperação: a origem do manejo do pirarucu


Peixe submerso no rio da Reserva Mamirauá
Foto: Mani Miranda / Reprodução: Inaturalist

O pirarucu (Arapaima gigas), maior peixe de escamas de água doce do planeta, entrou para a lista de espécies ameaçadas de extinção em 1996, resultado de décadas de pesca predatória em toda a Amazônia. A resposta, num primeiro momento, foi restritiva: a pesca comercial da espécie foi proibida, e o peixe se tornou objeto de pesquisa do Instituto Mamirauá, que já atuava na reserva desde sua criação, em 1996, como a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil.


A proibição isolada, no entanto, não bastava, porque não respondia a uma pergunta central: como impedir a pesca ilegal numa área de mais de 1,1 milhão de hectares de floresta alagada, cortada por centenas de lagos, sem transformar a própria população ribeirinha em fiscal e ao mesmo tempo em suspeita permanente. A resposta encontrada em 1999, na comunidade São Raimundo do Jarauá, foi inverter a lógica: em vez de proibir e vigiar de fora, o manejo participativo passou a transferir para as próprias comunidades a responsabilidade pela contagem, pela proteção dos lagos e pela definição de quem poderia pescar e quanto.


Como funciona o manejo, passo a passo


Peixe sob as águas claras do rio na Reserva Mamirauá
Foto: Sanne / Reprodução: Inaturalist

O método de contagem se apoia numa característica biológica do pirarucu: ele possui dois aparelhos respiratórios, um branquial e outro aéreo, e por isso precisa emergir à superfície a cada quinze ou vinte minutos para respirar. Pescadores treinados pelo grupo de pesquisa em peixes do Instituto Mamirauá, em parceria com instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), aproveitam essa emersão regular para estimar visualmente, lago a lago, quantos indivíduos adultos existem ali naquele momento.


Com a contagem em mãos, a comunidade submete o número ao Ibama, órgão responsável por autorizar a pesca e definir a cota permitida, que corresponde a, no máximo, 30% da população adulta contada. Os 70% restantes seguem no lago, garantindo estoque reprodutivo para o ano seguinte. Só depois dessa autorização a pesca acontece, de forma coletiva e concentrada em poucos dias, com toda a comunidade envolvida na captura, no transporte e, posteriormente, na comercialização do pescado, cujo lucro é dividido entre os participantes.


Os resultados: pescadores, renda e peixes recuperados


Guia observa a pousada flutuante do Uakari Lodge com rio ao redor na Reserva Mamirauá.
Foto: Lucas Ramos

Passadas quase três décadas desde o início do programa, o Instituto Mamirauá registra um crescimento de aproximadamente 620% no estoque natural de pirarucu nas áreas manejadas da reserva, com mais de 1.165 pescadores e pescadoras já tendo participado do processo em algum momento. O modelo se espalhou para outras regiões do Amazonas e hoje é citado internacionalmente como um dos casos mais documentados de recuperação de estoque pesqueiro por gestão comunitária no mundo.


O que sustenta esse resultado não é apenas a regra da cota, mas o fato de que ela nasce de dentro da própria comunidade, o que muda o incentivo por trás da fiscalização: proteger o lago da pesca ilegal deixa de ser uma imposição externa e passa a ser a defesa direta da própria fonte de renda e de alimento de quem vive na comunidade.


Da várzea ao prato: o peixe que sustenta o Uakari Lodge


Mesa posta com peixe assado, tomates e limões na Reserva Mamirauá.
Foto: Lucas Ramos

Esse sistema de manejo tem uma consequência concreta na mesa do Uakari Lodge. O pirarucu de manejo, justamente por ter origem rastreável e abate acompanhado por normas sanitárias, é a versão legal e sustentável de um peixe que, décadas atrás, só existia no mercado através da pesca ilegal. Junto com ele, o tambaqui, segundo maior peixe escamoso da bacia amazônica, também aparece com frequência no cardápio da pousada, preparado com técnicas das próprias comunidades ribeirinhas que cozinham para os hóspedes.


Comer pirarucu ou tambaqui durante a estadia, nesse sentido, não é apenas uma experiência gastronômica, mas parte da mesma cadeia que começa na contagem dos lagos e termina na cozinha da pousada, com a diferença de que aqui o hóspede consome o resultado direto de um sistema de conservação em funcionamento, e não seu contraponto predatório.


Pesca, agricultura e turismo: o modo de vida das comunidades ribeirinhas


Homem navega com barco sob rio na Reserva Mamirauá.
Foto: Sherolin Santos

Para as famílias que vivem no entorno e dentro da Reserva Mamirauá, a pesca nunca foi uma atividade isolada. Em comunidades como Caburini, Boca do Mamirauá ou Vila de São José, os moradores alternam a pesca com a agricultura de várzea e o trabalho no turismo, movendo-se entre essas três frentes conforme o calendário das águas e as necessidades de cada época do ano. Mais de 90% da equipe do Uakari Lodge vem justamente dessas comunidades, o que significa que o barqueiro que conduz o passeio pela manhã e a cozinheira que prepara o peixe com tucupi no almoço carregam, na prática cotidiana, o mesmo conhecimento sobre os lagos que sustenta o manejo do pirarucu.


Essa proximidade entre pesca, alimentação e turismo é também econômica. Somente em 2024, as comunidades receberam mais de meio milhão de reais em benefícios diretos provenientes da operação do lodge, parte financiada pela Taxa de Apoio Socioambiental incluída em cada diária, recursos que se somam à renda já gerada pelo próprio manejo pesqueiro. Para conhecer melhor quem são essas famílias e como se organiza a vida dentro da reserva, vale a leitura do artigo sobre as comunidades ribeirinhas da Amazônia publicado aqui no blog.


A pesca tradicional na experiência do Uakari Lodge


Homem pesca com vara no rio da Reserva Mamirauá
Foto: Murilo Araújo

Para quem se hospeda no Uakari Lodge, o contato com a pesca acontece de forma direta, mas sempre mediado pelos guias locais e adaptado ao roteiro escolhido:


  • Pesca tradicional e artesanal de piranha, atividade incluída nos roteiros de 4 e 7 noites, conduzida com segurança pelos guias ribeirinhos.

  • Passeios de canoa pelos igapós e canais, onde é possível observar aruanãs saltando nas margens e cardumes de piranha se movendo entre as raízes submersas.

  • Conversas com pesquisadores do Instituto Mamirauá, que trabalham a poucos quilômetros da pousada e explicam de perto o funcionamento do manejo do pirarucu.

  • O próprio cardápio da pousada, onde pirarucu e tambaqui aparecem preparados com as técnicas das comunidades locais.


Nenhuma dessas atividades existe isoladamente. Elas fazem parte de uma estrutura maior, pensada pelo Uakari Lodge e pelo Instituto Mamirauá, em que conhecer a reserva significa entender por que a pesca ali segue regras tão específicas e por que essas regras, longe de restringir a experiência do visitante, são exatamente o que garante a existência dos peixes que ele vai observar, e comer, durante a estadia.


Para conhecer todos os roteiros e atividades disponíveis, visite a página de experiências do Uakari Lodge


Siga o Instagram do Uakari para acompanhar de perto o dia a dia da reserva e faça sua reserva para viver essa experiência de perto.


©2021 por UAKARI LODGE   Fotos: ©GuiGomes

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