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Onças de Mamirauá: como as onças-pintadas da Amazônia aprenderam a viver nas árvores

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Conheça as onças-pintadas de Mamirauá: maior densidade do mundo, vida nas árvores e adaptações únicas da Amazônia alagada


Onça-pintada descansando sobre galho de árvore na floresta amazônica, com pelagem manchada e olhar relaxado.
Foto: Emiliano Ramalho

A Reserva Mamirauá, no coração da Amazônia, abriga a maior densidade de onças-pintadas já registrada no mundo, com até 10 indivíduos a cada 100 km². Adaptadas às florestas de várzea, essas onças passam até quatro meses por ano vivendo entre as copas das árvores, onde caçam, nadam e criam seus filhotes. 


O registro desse recorde é fruto de duas décadas de pesquisa contínuas conduzidas pelo Instituto Mamirauá, por meio do Projeto Iauaretê, o primeiro estudo de longo prazo com onças-pintadas na Amazônia. Ao longo desses anos, pesquisadores identificaram, nomearam e acompanharam centenas de indivíduos na reserva, revelando um comportamento que ainda intriga a ciência. 



A maior concentração de onças do planeta

Filhote de onça-pintada espreita entre galhos de árvore na floresta, com olhar curioso e fundo verde desfocado.
Foto: Emiliano Ramalho

Levantamentos com armadilhas fotográficas indicam uma concentração superior a 10 onças a cada 100 km² dentro da Reserva Mamirauá, a mais alta já registrada para a espécie. Um estudo publicado na revista científica Biological Conservation, que comparou 22 áreas protegidas da Amazônia, chegou a uma estimativa ainda mais detalhada para a reserva: 9,97 indivíduos por 100 km², a densidade mais alta entre todas as áreas amostradas no bioma.


O motivo por trás desse número é simples de enunciar e complexo de sustentar. A várzea reúne fartura de presas e um alto grau de conservação, condições raras de encontrar juntas na Amazônia atual.


Uma vida em cima d'água


Onça-pintada camuflada entre folhas, apoiando a cabeça num galho e olhando para a câmera na floresta amazônica.
Foto: Emiliano Ramalho

Talvez a característica mais surpreendente das onças de Mamirauá seja o quanto elas dependem das árvores. Um estudo publicado na revista Ecology mostrou que essas onças podem passar praticamente um terço do ano sobre as copas das árvores, período em que a floresta de várzea permanece inundada pela cheia dos rios Solimões, Japurá e Auati-Paraná. Elas caçam, descansam, se reproduzem e criam a prole nesse ambiente suspenso, um comportamento nunca antes descrito para um grande felino terrestre. O estudo completo pode ser consultado na publicação original, Ramalho et al. (2021).


Essa vida arbórea também molda o corpo dessas onças. Por serem menores e mais leves que as onças de outros biomas, como o Pantanal, elas sobem em árvores com mais facilidade. A onça mais pesada já capturada na reserva, batizada de Galego, tinha 72 kg, um peso bem abaixo dos mais de 100 kg registrados em onças pantaneiras.



O cardápio da várzea


Onça-pintada caminhando numa margem rochosa ao lado de água amarelada, com pelagem pintada e sombra no chão.
Foto: Ítalo Guimas

A dieta das onças de Mamirauá acompanha o calendário das águas. Durante a cheia, quando o acesso ao solo fica restrito, a preguiça-bentinho (Bradypus tridactylus) se torna a presa mais consumida, justamente por também viver no alto das árvores. Já na seca, quando os corpos d'água se retraem, o jacaré-tinga (Caiman crocodilus) passa a ser mais predado. A alternância entre essas duas presas praticamente define o ritmo alimentar da espécie na reserva ao longo do ano.


Onças-pretas e a genética por trás do mistério

Onça preta com coleira, de perfil, em meio à mata amazônica desfocada, com olhar atento.
Foto: Emiliano Ramalho

Quem visita a Amazônia com a expectativa de ver uma onça-pintada às vezes se surpreende ao topar com uma completamente preta. Onça-preta e onça-pintada são a mesma espécie, Panthera onca. A diferença está no melanismo, uma condição genética que aumenta a produção de melanina e escurece toda a pelagem, incluindo as rosetas, que continuam lá, só que praticamente invisíveis a olho nu.


Enquanto o melanismo aparece em cerca de 11% da população de onças da Amazônia como um todo, em Mamirauá essa taxa sobe para algo entre 18% e 30%. Das dezessete onças que já receberam colar de rastreamento pelo projeto, sete eram pretas, uma proporção alta o suficiente para intrigar os próprios pesquisadores.


Rosetas: a impressão digital de cada onça


Onça-pintada em câmera noturna, de perfil, com olhos brilhando e pelagem manchada em preto e branco.
Foto: Acervo GP Felinos / Instituto Mamirauá

Cada onça-pintada carrega um padrão de rosetas tão único quanto uma impressão digital humana, diferente inclusive entre o lado esquerdo e o lado direito do próprio corpo. É assim que o Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia consegue identificar, nomear e recontar os mesmos indivíduos ano após ano só a partir de imagens de armadilhas fotográficas. Foi esse método que permitiu reconhecer Confuso, uma onça fotografada em 2013 e novamente em 2015, com o mesmo desenho de manchas preservado ao longo do tempo.


Esse catálogo de indivíduos é também o que dá nome à obra que originou este texto. Baden, Caçulão, Fofa, Django, Pérola, Mudinha: cada onça monitorada em Mamirauá tem uma história registrada, uma área de vida mapeada e, em alguns casos, mais de dez anos de observações acumuladas.


A reprodução sincronizada com o rio

Duas onças-pintadas se abraçam de perto, com expressão calma, em close-up na natureza da Reserva Mamirauá.
Foto: Paulo Vinicius Sousa Barbosa

O acasalamento das onças de Mamirauá tende a acontecer durante a cheia, o que faz os filhotes nascerem justamente no início da vazante, quando as águas começam a baixar e as presas voltam a ficar mais acessíveis. A gestação dura de três a quatro meses, tempo que coincide com a duração média da própria enchente. Os filhotes passam os dois primeiros anos de vida junto da mãe, período em que aprendem a caçar e, no caso das onças de várzea, a se equilibrar entre os galhos.


Ciência e turismo responsável lado a lado

Mulher agachada aponta para o solo em trilha na floresta densa, cercada por folhas verdes e luz filtrada.
Foto: Marcelo Santana

Todo esse conhecimento não fica restrito aos artigos científicos. O monitoramento de onças na Reserva Mamirauá também alimenta experiências de observação conduzidas com o apoio de pesquisadores em campo, que localizam os animais monitorados por colar antes de levar visitantes até eles. É um raro encontro entre pesquisa séria e experiência de viagem, possível justamente porque a reserva concilia conservação da biodiversidade com o uso sustentável do território, um modelo pensado desde a criação da primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil, em 1996.


Hospedado no Uakari Lodge, dentro da própria Reserva Mamirauá, é possível vivenciar de perto essa combinação entre floresta, ciência e comunidades locais que tornam o estudo das onças-pintadas da várzea um dos capítulos mais fascinantes da pesquisa sobre a Amazônia.


Para conhecer as experiências de hospedagem no Uakari Lodge e planejar sua estadia na Reserva Mamirauá, visite nosso site


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©2021 por UAKARI LODGE   Fotos: ©GuiGomes

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