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Lições de um turismo que faz sentido

  • 31 de jul.
  • 3 min de leitura
Imagem da Mariana Vieira.

A Amazônia vive hoje uma disputa de narrativas. De um lado, a ideia do exótico atrelada aos seus valiosos insumos: comidas de sabor incomparável, óleos milagrosos... De outro, a Amazônia do “desenvolvimento”, daqueles que prometem projetos megalomaníacos de plantação, gado e mineração - e apresentam essas atividades como resposta para “acabar com a pobreza” de um povo que nunca pediu por essas soluções. Com uma simples rolagem pelas redes sociais, encontra-se ainda uma infinidade de pacotes turísticos que prometem “conexão com a floresta”, mas a vinculam a experiências luxuosas vividas dentro de uma bolha, onde as pessoas e a cultura da terra ficam do lado de fora.


Sou jornalista e criadora de conteúdo no perfil @marianadisse. Sou paraense orgulhosa, vivo e comunico sobre minha terra para valorizar sua cultura, quebrar estereótipos e ajudar a proteger a Amazônia. Depois de viver a experiência de quatro noites na Uakari Lodge - a convite da própria pousada -, saí de coração limpo e leve por entrar em contato com um tipo de turismo honesto, inovador e que faz jus ao território.


As atividades variam conforme a estação. Na seca, o avistamento de botos e jacarés ganha espaço, assim como as caminhadas interpretativas pela floresta. Quando a cheia cobre a terra e nos permite flutuar de canoinha entre as copas das árvores, fica mais fácil observar de perto preguiças e bandos de macaquinhos. Os condutores e guias não poupam conhecimento e fazem a gente se apaixonar por cada cheiro, cada planta, cada gosto, cada bicho. E tudo isso acontece com retornos à base (a própria estrutura da pousada) para almoços, lanches e jantares deliciosos, saudáveis e tipicamente regionais.


Imagem de homem no Rio Mamirauá.
Durante a cheia, passeamos de canoinha entre as copas de árvores com mais de 10 metros de altura

A rotina foi perfeita. Me deixou querendo mais dias para contemplar o rio e a mata em transformação a cada cheia e a cada seca. A estrutura é realmente muito boa - varanda com rede nos quartos, sala de jogos na cabana central... O repelente é indispensável, e o preparo prévio para lidar com a instabilidade da internet também é necessário para quem pretende contar com ela. Como atividade adicional, experimentei a “noite na mata” (inclusa no pacote de sete dias) e recomendo bastante para quem tem interesse e abertura para dormir em rede, mais inserido nos sons e no ambiente da floresta. O despertar na casa da mata é lindíssimo e emocionante, especialmente com o som das guaribas.


Na Uakari, o exótico perde espaço para a simplicidade de quem conhece cada curva do rio como conhece as esquinas do próprio bairro; de quem sabe onde colher fruta e em que hora os bichos passam. É uma riqueza que a gente aprende a observar com atenção e, aos poucos, a valorizar em cada detalhe.


Nesse contexto, se o “desenvolvimento” alguma vez pareceu ter de acontecer às custas da vida da floresta, aqui tudo ganha outro significado. No formato de Reserva de Desenvolvimento Sustentável, as comunidades tradicionais de Mamirauá vivem em equilíbrio com a natureza e são, ainda, devidamente recompensadas por isso. É a taxa do turista (aquela que você paga inclusa no pacote) que financia melhorias na estrutura e na logística dos moradores, por exemplo. Nada mais justo para quem trabalha dia e noite para vigiar e defender o território protegido.


Não por acaso, esse também é um dos importantes territórios de pesquisa da Amazônia brasileira, onde cientistas vinculados ao Instituto Mamirauá estudam há décadas a biodiversidade, o manejo sustentável dos recursos naturais e as formas de convivência entre comunidades tradicionais e floresta.


Isso tudo, somado à sustentabilidade da própria pousada, de suas atividades e instalações, é o que torna o modelo de turismo de base comunitária exemplar para quem quiser ver. Estruturas feitas com madeira de manejo, energia produzida a partir do sol, volume e rotatividade de visitantes definidos pelo respeito à capacidade do território.


Imagem do Rio da Reserva Mamirauá.
A convivência respeitosa com as espécies nativas da reserva nos proporciona vistas incríveis

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá vai te mostrar que existem outras formas de se relacionar com a Amazônia e suas maneiras de viver. Muitas possibilidades surgem quando a conservação deixa de ser vista como obstáculo e passa a ser entendida como caminho para as nossas vidas. Formas que não passam pela exploração desenfreada, nem pela romantização vazia da floresta, mas pelo respeito.


Em tempos em que tantos falam sobre o futuro da Amazônia sem escutar quem a habita, a experiência da Uakari lembra que proteger a floresta e garantir qualidade de vida às comunidades não são objetivos opostos. Pelo contrário: são partes inseparáveis da mesma história.


©2021 por UAKARI LODGE   Fotos: ©GuiGomes

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