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O que muda quando uma pousada é gerida pelas comunidades? Conheça o Uakari Lodge

há 7 horas
5 min de leitura

Veja como a gestão comunitária define o dia a dia do Uakari Lodge: quem decide, como a renda circula na Reserva Mamirauá e o que muda na sua estadia


Dois homens de boné e colete camuflado na floresta amazônica da Reserva Mamirauá; um olha para a câmera, com patch da bandeira do Brasil e texto branco no boné.
Foto: Made Solutions

No Uakari Lodge, uma pousada flutuante localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia brasileira, a gestão comunitária significa que o trabalho e as decisões da pousada são compartilhados entre as comunidades ribeirinhas da Reserva Mamirauá e o Instituto Mamirauá.


Moradores organizados pela Associação de Auxiliares e Guias de Ecoturismo do Mamirauá (AAGEMAM) trabalham em sistema de rodízio, enquanto a renda dos serviços e da Taxa de Apoio Socioambiental retorna às comunidades. 


Quem pesquisa hospedagem na Amazônia encontra expressões como turismo sustentável, ecoturismo e turismo comunitário, mas nem sempre é fácil entender o que elas significam na prática. No Uakari Lodge, as comunidades participam do trabalho da pousada, das decisões sobre a atividade turística e da definição de como parte da renda gerada pelo turismo é utilizada. Esse modelo ajuda a entender como a gestão comunitária funciona e quais efeitos ela tem na operação da pousada e na experiência dos hóspedes.


O que é turismo de base comunitária?


No turismo de base comunitária, os moradores ficam no centro da operação turística. Eles participam da gestão, executam as atividades e recebem os benefícios gerados. Na Amazônia, esse arranjo gera renda e emprego como alternativa à exploração predatória dos recursos naturais, incentiva a conservação da floresta, valoriza os saberes tradicionais e qualifica a população local. O visitante, por sua vez, é guiado por quem conhece e vive no território.


A diferença aparece quando se compara com outras formas de visitar a floresta. Cruzeiros fluviais priorizam o conforto e costumam ter menos contato com as comunidades. Hotéis tradicionais oferecem atividades, mas nem sempre envolvem os moradores na operação. Passeios curtos a partir de Manaus dão uma ideia da paisagem, sem a imersão de uma estadia dentro da floresta. O turismo de base comunitária é a modalidade em que a comunidade participa da gestão, da operação e da distribuição dos benefícios, e a gestão comunitária é a parte que responde à pergunta "quem decide?".


Como começou a gestão comunitária no Uakari Lodge?


Guia local do Uakari Lodge observa casas flutuantes de telhado laranja no lago mamirauá tranquilo cercado por mata sob céu azul
Foto: Lucas Ramos

O Uakari Lodge está dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no encontro dos rios Solimões e Japurá. A reserva tem 1.124.000 hectares de floresta de várzea, que ficam alagados por cerca de seis meses por ano, e integra um sítio do Patrimônio Natural da Humanidade. Dentro dela vivem cerca de 177 comunidades ribeirinhas, com aproximadamente 11,5 mil moradores, segundo o Censo de 2011.


O turismo ali nasceu da recepção de pesquisadores durante o Projeto Mamirauá, na década de 1990. Aos poucos, essa recepção virou uma operação estruturada, consolidada no Uakari Lodge. A atividade foi apresentada às comunidades como uma fonte de renda complementar às que elas já tinham, como a pesca e a agricultura de várzea. Desde 1998, a operação repassou mais de R$ 6,4 milhões às comunidades da área, e a pousada tem mais de 25 anos de funcionamento.


Quem participa da gestão do Uakari Lodge? 


A pousada funciona em co-gestão entre as comunidades do Setor Mamirauá e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. A AAGEMAM, associação criada pelos próprios moradores, organiza a equipe. Em 2025, mais de 90 comunitários trabalharam no lodge como guias, camareiros, cozinheiros, carpinteiros, zeladores e copeiros, e alguns assumiram funções de supervisão e gestão local. O Instituto responde pela pesquisa e pela conservação, e os passeios seguem protocolos definidos por ele.


As comunidades que participam da co-gestão se reúnem a cada dois meses, definem prioridades locais e executam atividades como turismo, manejo e monitoramento. Uma vez por ano, presidentes e vice-presidentes das onze comunidades parceiras participam da Reunião dos Presidentes, em que são apresentados o faturamento, o número de visitantes e as avaliações dos hóspedes. As lideranças comentam os resultados e ajudam a orientar as decisões seguintes. Em 2025, o encontro aconteceu na comunidade Boca do Mamirauá.


As mulheres ocupam um lugar central nessa gestão. No lodge, elas lideram a administração, coordenam a recepção e a logística, conduzem atividades e mantêm a culinária regional e a transmissão de saberes sobre a floresta. As pesquisadoras Tharyn Machado e Patrícia Rosa, do Instituto Mamirauá, estudam como as relações de gênero se organizam nas atividades socioeconômicas da reserva. Em setembro de 2025, o Ciclo de diálogos entre mulheres do turismo comunitário reuniu participantes para discutir desafios e perspectivas do território.


Como o trabalho é organizado entre as comunidades? 


Duas escolhas de gestão moldam o funcionamento da pousada. A primeira é o rodízio: cada pessoa trabalha cerca de 12 dias por mês, o que distribui a oportunidade de renda entre mais famílias e deixa tempo para a pesca, a agricultura e as demais atividades da comunidade. A segunda é o controle do número de hóspedes. A pousada recebeu 551 visitantes em 2023, 676 em 2024 e 653 em 2025, em grupos de no máximo 24 pessoas, e a gestão mantém o total anual dentro de limites que evitem impactos ambientais e sociais na reserva.


Como a renda do turismo retorna para as comunidades? 


Grupo de 13 pessoas posa em pavilhão de madeira, segurando certificados, com clima alegre e descontraído.
Foto: Lucas Ramos

Em 2024, os benefícios diretos somaram R$ 525.681, sendo R$ 487.941 por serviços prestados e R$ 37.740 da Taxa de Apoio Socioambiental. Em 2025, o repasse à AAGEMAM foi de R$ 607.688,05, o maior valor em quatro anos, e a taxa arrecadou R$ 36.000. Além dos serviços, o lodge compra produtos e insumos diretamente nas comunidades, o que amplia as fontes de renda das famílias.


A taxa já vem incluída na diária, e o destino do dinheiro é decidido pelas próprias comunidades, por meio de um sistema de pontuação criado e gerido por elas. Quem participa de ações de conservação, como a vigilância de lagos, ganha pontos, e os recursos vão para projetos coletivos, como barcos para transporte comunitário, centros comunitários e rádios de comunicação.


A participação local também aparece fora da hospedagem. No manejo do pirarucu, conduzido pelo Instituto desde 1999, o estoque nas áreas manejadas cresceu cerca de 620%. É um programa distinto do turismo, com a mesma lógica de envolver quem vive no território.


O que a gestão comunitária muda na experiência do hóspede?


Grupo de 16 pessoas em camisetas verdes e brancas do Uakari Lodge posa sorrindo e acenando num deck de madeira à beira de um lago.
Foto: Gui Gomes

Nenhum passeio sai sem guia local, e quem conduz o grupo nasceu e cresceu na reserva. A formação dos guias inclui identificação de espécies, primeiros socorros em floresta tropical, protocolos de emergência e manejo de embarcações. Mais de 90% da equipe é formada por moradores da região.


Nas visitas a comunidades como Caburini, Boca do Mamirauá e Sitiode São José, os moradores é que apresentam o lugar, e o roteiro inclui conversas com pesquisadores do Instituto Mamirauá. As regras de segurança, entre elas a proibição de banho no rio, são explicadas no check-in. Como a taxa está na diária, a contribuição para as comunidades não exige nenhuma decisão extra de quem se hospeda.


O modelo já recebeu reconhecimento externo. Em 2015, o lodge conquistou o prêmio Best for Poverty Reduction, no World Responsible Tourism Awards, e, em 2025, ficou entre os finalistas do Prêmio Nacional do Turismo, na categoria Turismo de Base Comunitária.



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©2021 por UAKARI LODGE   Fotos: ©GuiGomes

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