ūüáßūüá∑ A Guia Naturalista em Campo: Vida Comunit√°ria na Reserva Mamirau√°

Para os ribeirinhos que tem uma relação próxima com as águas desde muito cedo, andar de canoa é tão natural quanto caminhar.

Uakari Lodge | Mamirau√° Reserve | Amazon Brazil

Comunidade da Reserva Mamirauá durante o período de cheia

J√° contei um pouco aqui no blog sobre as comunidades ribeirinhas de Mamirau√°. Como guia naturalista que sou (pra n√£o dizer pessoa met√≥dica ūüėÄ ) no primeiro post dei um breve contexto hist√≥rico e neste podemos abordar mais a din√Ęmica atual das comunidades.

O aspecto que mais chama aten√ß√£o dos h√≥spedes da Pousada Uacari durante a visita √†s comunidades com certeza √© a resili√™ncia do povo ribeirinho frente ao ciclo das √°guas. A Reserva de Desenvolvimento Sustent√°vel Mamirau√° est√° totalmente inserida num ambiente de v√°rzea, que √© um tipo de floresta inund√°vel da Amaz√īnia. Ou seja, h√° duas esta√ß√Ķes anuais principais: a cheia (que aqui em Mamirau√° vai de fevereiro a agosto e os rios recebem em m√©dia 10 metros de √°gua) e a seca (setembro a janeiro). Essa din√Ęmica ao mesmo tempo que oferece atrativos para as popula√ß√Ķes humanas (recurso pesqueiro e solo f√©rtil) imp√Ķe algumas dificuldades (at√© 4 meses sem terra seca por exemplo). Apesar de n√£o ser uma vida f√°cil, a maioria das popula√ß√Ķes humanas na Amaz√īnia est√° concentrada em √°reas de v√°rzea.

Uakari Lodge | Mamirau√° Reserve | Amazon Brazil

Morador local da Reserva Mamirau√° tecendo rede para pesca

Os seres humanos, como os outros habitantes da várzea, desenvolveram estratégias especiais para habitar esse ambiente. Só de olhar para as casas já é possível concluir isso, os ribeirinhos moram em casas de madeira elevadas ou em casas flutuantes, assim, quando a cheia vem e o chão some as casas não ficam submersas. Em alguns anos, porém, a cheia é maior e pode ultrapassar o piso das casas, forçando os ribeirinhos a construir outro piso mais elevado para esse período ou ainda buscar abrigo na casa de parentes nas cidades.

Os ribeirinhos utilizam barcos e canoas para os deslocamentos durante a cheia, principalmente para pescar (que é a principal atividade de muitos deles) e também para realizar seus afazeres dentro da comunidade, já que não é possível caminhar. Mas para os ribeirinhos que tem essa relação tão próxima com o rio desde muito cedo (é normal ver crianças pequenas aprendendo a nadar ou acompanhando os pais para pescar e outras de sete anos remando e pescando sozinhas) andar de canoa é tão natural quanto caminhar.

Durante a seca √© poss√≠vel plantar a mandioca e a macaxeira (que junto com o peixe s√£o as bases alimentares da regi√£o), o milho, o jerimum, feij√£o de praia, melancia e outros. Como o solo √© muito f√©rtil a mandioca, que geralmente leva um ano pra estar boa para colher, aqui √© colhida em seis meses. No final da colheita os ribeirinhos produzem artesanalmente a farinha Uarini, esta variedade de farinha de mandioca chamada tamb√©m de ovinha (por ter formato de bolinha como a ova dos peixes) √© a preferida da regi√£o e foi declarada patrim√īnio cultural e aliment√≠cio da Amaz√īnia. A farinha pode ser armazenada para ser consumida durante a cheia pela fam√≠lia e o excedente vai ser levado para as cidades para que os ribeirinhos possam vender e assim trocar por outros produtos como caf√©, leite em p√≥, arroz, etc.

Uakari Lodge | Mamirau√° Reserve | Amazon Brazil

Comunidade da Reserva Mamirauá durante o período de seca.

Essas atividades: o cuidar da terra, plantar, colher, preparar farinha normalmente s√£o responsabilidade de cada fam√≠lia, mas existem atividades que a comunidade toda desempenha junto, como por exemplo, os mutir√Ķes (conhecidos por aqui como ajuris) para limpeza e corte da grama durante a seca. Ali√°s, √© muito interessante esse senso comunit√°rio e a organiza√ß√£o das comunidades, a maioria delas √© uma associa√ß√£o formal que tem uma diretoria (presidente, vice, secret√°rio, tesoureiro, etc.) eleita pelos comunit√°rios.

Existem muitos aspectos interessantes na vida comunitária e por ser uma realidade completamente diferente da maioria vivida pelos nossos hóspedes as visitas às comunidades são sempre um exercício de aprendizado e empatia. Nem se eu quisesse traduzir essa experiência em texto, não conseguiria… você simplesmente terá de nos visitar!

***

Créditos:

. Texto: Cynthia Lebr√£o

. Imagens: Gui Gomes

#MamirauáReserve #amazon #amazonas #onçapintada #DesenvolvimentoSustentável #Wildlife #Ecoturismo #UakariLodge #Mamirauá #PousadaUacari #jaguar